As charnecas são habitats compostos por vegetação arbustiva pouco desenvolvida e descontínua, daí serem chamados também de matos rasteiros. Estes habitats são frequentemente associados a solos mais rochosos e podem ser encontrados em diversos locais com climas diferentes, quer em zonas mais frias e húmidas de montanha, quer em locais mais secos de clima temperado. As charnecas são zonas pouco produtivas, pois formam-se após a degradação de outros habitats (por exemplo, bosques de carvalhos e de salgueiros), causada geralmente pelo pastoreio intensivo. Apesar de serem meios tipicamente mais áridos e pouco produtivos, as charnecas são importantes para a biodiversidade ao acolherem variadas espécies de flora e fauna.

Biodiversidade

As charnecas são caracterizadas pela presença de um grupo particular de plantas arbustivas, as urzes (Calluna vugaris e Erica spp.). As urzes são arbustos rasteiros bem adaptados a ambientes áridos e de solos mais pobres, características que lhes permitem ser a espécie de planta dominante nas charnecas. De facto, alguns tipos de charnecas podem ser identificados de acordo com a presença de determinadas espécies de urzes. São um grupo de plantas diverso, e podemos observá-las com as suas flores coloridas cobrindo charnecas de terrenos rochosos variados (como de granito e xisto). Em zonas húmidas de montanha, as urzes aparecem em conjunto com espécies de tojos (Ulex minor) e de giestas (Genista spp.) rasteiras, frequentemente em zonas de cumeada (isto é, das linhas mais altas das montanhas). Em zonas litorais e em outras áreas rochosas mais baixas e secas do interior, as urzes do grupo das éricas (Erica spp.) são mais comuns, aparecendo também em conjunto com várias espécies de tojos. Mesmo nas áreas mais subidas de montanha, como nos picos da Serra da Estrela, podemos encontrar charnecas com vegetação característica, como o zimbro-anão (Juniperus communis), uma espécie adaptada a climas alpinos (ou seja, climas muito frios de montanha, por vezes com presença de neve).

As charnecas abrigam também muitas espécies conhecidas da fauna portuguesa. A cobertura pouco densa destes habitats agrada a espécies típicas de espaços abertos, como as aves de rapina. A águia-cobreira (Circaetus gallicus), a águia-de-asa-redonda (Buteo Buteo) ou o peneireiro-comum (Falco tinnunculus), são alguns exemplos que podem ser encontrados a sobrevoar os terrenos de charneca. Pelo contrário, os poucos refúgios disponíveis entre a vegetação aberta e rasteira é uma desvantagem para alguns animais, como os mamíferos. Ainda assim, podemos encontrar espécies bem adaptadas a estes habitats, como o rato-do-campo-de-cauda-curta (Microtus agrestis), e também outras mais generalistas, como a lebre (Lepus capensis) e a raposa (Vulpes vulpes). A aridez típica dos habitats de charneca são uma desvantagem para os anfíbios, que precisam de recorrer a estratégias elaboradas para obtenção de água. A salamandra-de-costelas-salientes (Pleurodeles waltl), também conhecida como salamandra-dos-poços, pode ser encontrada em bebedouros para o gado, enquanto que o sapo-comum (Bufo bufo) aproveita as gotas de água de humidade que se condensam no solo ou em folhas de vegetação. No entanto, a aridez pode ser vista como uma vantagem para outros grupos de animais adaptadas a pouca disponibilidade de água, como os répteis e os invertebrados. O espaços abertos garantem uma boa exposição ao sol para os répteis se poderem aquecer, e as zonas rochosas com vegetação rasteira são perfeitos esconderijos usados por lagartixas, cobras e escincos. Estes esconderijos podem também ser utilizados por espécies de invertebrados conhecidas de zonas mais áridas, como o lacrau (Buthus ibericus) e a aranha-lobo (Hogna radiata).

Serviços

As charnecas, embora sejam caracterizados como habitats de baixa produção, desempenham importantes serviços de ecossistemas. Em primeiro lugar, servem como refúgios de biodiversidade, acolhendo espécies muita raras e em risco de extinção, como o cravo-de-burro (Cirsium welwitschii). A presença das charnecas, bastante característica em zonas montanhosas, constitui igualmente um valor turístico da paisagem. Estes habitats desempenham, também, um papel importante na manutenção dos ciclos da água e de outros nutrientes, assim como na obtenção de vários recursos. A produção de mel, extraído a partir das flores das urzes, é uma actividade comum e rentável nas regiões de montanha. As plantas nativas das charnecas também podem ser utilizadas de diferentes maneiras, seja para fins ornamentais, para a alimentação, ou para fins medicinais. Outro dos serviços fornecidos pelas charnecas é a extracção de areias, uma actividade realizada em zonas rochosas mais degradadas. No entanto, tendo em conta que as charnecas são por si só pouco produtivas, a exploração intensiva destes habitats poderá levar à sua destruição e consequente desaparecimento.

Impactos

Tal como os matos e matagais, as charnecas são principalmente vulneráveis a factores de impacto que contribuem para a sua destruição directa ou indirecta. A sobre-exploração dos solos através das actividades pastoris, representa um dos maiores factores de ameaça a estes habitats. O pisoteio, causado tanto pelo gado como por turistas em áreas mais concentradas, contribui para a destruição da vegetação e erosão dos solos, já de si empobrecidos. Outros factores importantes que contribuem para a degradação das charnecas são os fogos, o corte e arranque de plantas e a construção de estruturas (como por exemplo de habitações, estradas, caminhos, parques eólicos e construções ligadas ao turismo).

Invasoras

A introdução de espécies invasoras em charnecas, embora menos comum do que em relação a outros habitats, pode representar outro factor de impacto relevante. As charnecas podem ser invadidas por espécies de arbustos e de árvores adaptadas a ambientes mais áridos, tais como as acácias e as háqueas. A háquea-espinhosa (Hakea sericea), um arbusto originário das regiões áridas do sul da Austrália, é já considerada uma espécie invasora de risco para as charnecas. Esta espécie foi introduzida em Portugal para fins ornamentais (formação de sebes), e actualmente encontra-se distribuída por quase todas as regiões do país. Como é uma planta oriunda de zonas áridas, a háque-espinhosa consegue colonizar facilmente os habitats de charneca, formando bosques densos que impedem o crescimento da vegetação nativa. As formações de bosques de háquea prejudicam também a fauna local, adaptada ás áreas abertas e com vegetação rasteira. Além do mais, a presença desta planta aumenta a probabilidade de aparecimento de fogos e contribui para espalhar fogos activos, prejudicando quer os habitats de charneca, quer outros com vegetação mais desenvolvida, como os matos, bosques e florestas. Outras espécies de invasoras, como a erva-das-pampas (Cortaderia selloana) e algumas espécies de acácia, como a mimosa (Acacia dealbata) e a acácia-da-Austrália (Acacia melanoxylon), também se adaptam facilmente às condições mais áridas das charnecas, provocando impactos semelhantes aos das invasões das háqueas. Por estas razões, as acções de conservação devem ter atenção às possíveis introduções e propagações de espécies invasoras nestes locais.

Conservação

As introduções e propagações de espécies invasoras em charnecas podem ser evitadas através de programas nacionais de controlo e vigilância. O incentivo de acções de erradicação das háqueas, da erva-das-pampas e das acácias, permitirá reduzir o impacto destas espécies na flora e fauna nativa das charnecas. Os esforços dedicados à eliminação de invasoras também poderão ser compensados pela diminuição da taxa de fogos e pelo enriquecimento dos solos. Outras acções de conservação devem ser focadas na limitação de actividades que contribuem para a destruição directa das charnecas. A redução do pisoteio pode ser obtida através de acções de ordenamento do pastoreio e do sector turístico (por exemplo, através de acordos com proprietários e agências de turismo). A limitação de outros factores de impacto, tais como construções de estruturas, extracção intensiva de recursos e potenciais expansões urbanas, são também importantíssimas para preservar os habitats de charneca.

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