As dunas costeiras são um habitat muito importante distribuído por todo o litoral de Portugal. O processo de formação das dunas é iniciado com o transporte das areias da praia pelo mar e pelo vento. À medida que são transportadas, as areias vão ficando acumuladas ao redor de diferentes obstáculos, como rochas, plantas ou simples irregularidades do solo. A acumulação de maiores quantidades de areia ao longo do tempo leva à formação de montes arenosos mais extensos e mais altos, até à eventual formação das dunas. No entanto, a formação das dunas é um processo lento e gradual. Este processo é normalmente constituído por várias fases que podem ser identificadas pela presença de diferentes tipos de dunas. A fase inicial da formação das dunas pode ser vista na primeira camada do cordão dunar, onde são originadas as dunas primárias. Estas dunas também podem ser chamadas de dunas móveis, vivas (por serem compostas de areia instável) ou brancas (pelos espaços vastos sem vegetação). Na camada interior seguinte do cordão dunar encontram-se as dunas cinzentas, assim chamadas por causa da cor típica da vegetação e dos líquenes que aí residem. Estas dunas são mais estáveis do que as dunas brancas, pois a presença de vegetação herbácea (como ervas e gramíneas) permite a sua fixação e estabilização. As camadas mais interiores do cordão dunar são geralmente as mais antigas e as mais estáveis, sendo cobertas por vegetação mais desenvolvida (arbustos e árvores).

Biodiversidade

A diversidade de dunas das áreas litorais serve como refúgio a muitas espécies de plantas e animais. No entanto, as espécies que residem nestes habitats têm de desenvolver adaptações eficazes face às condições mais adversas, tais como a falta de água, ventos fortes e altas temperaturas. O estorno (Ammophila arenaria), uma planta herbácea típica de habitats dunares, consegue sobreviver nestes ambientes devido às suas raízes compridas, que lhe permitem o acesso à água presente nas partes mais profundas do solo e a fixação da planta nas areias mais móveis. Esta planta vive em comunidade nas zonas de dunas brancas, e as suas raízes profundas e ramificadas originam grandes acumulações de areia e a consequente fixação dunar. Nas zonas mais estáveis de dunas cinzentas podemos encontrar uma maior diversidade de vegetação, como várias espécies de plantas arbustivas (por exemplo, a granza-marítima, Crucianella maritima). A presença de comunidades vegetais mais desenvolvidas ajuda a uma maior fixação das dunas, assim como a colonização de muitas espécies de animais.

Muitas espécies de animais utilizam os habitats dunares como abrigo, zonas de alimentação e de reprodução. Algumas aves, como a andorinha-do-mar-anã (Sternula albifrons) e o borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus), utilizam as dunas para construir os seus ninhos, escondendo-os de eventuais predadores. Outras aves usam estes habitats como fonte de alimento, pois as dunas são áreas muito ricas em invertebrados. Podemos encontrar uma grande variedade de aranhas, louva-a-deus, escaravelhos e ainda espécies de invertebrados bastante conhecidas, como a pulga-da-areia (Talitrus saltator). A diversidade de invertebrados serve também de alimento a muitas espécies de répteis. Além do mais, as altas temperaturas e exposição ao sol são aproveitadas por algumas espécies de lagartos e lagartixas para aquecer o seu organismo. Os habitats dunares são também refúgio para muitas espécies de mamíferos. O coelho-bravo (Oryctolagus cunniculus) consegue adaptar-se facilmente a estes locais, escavando as areias para construir tocas e para procurar raízes de plantas suculentas. A raposa (Vulpes vulpes) também vagueia por estes habitats, procurando activamente pequenos mamíferos, lagartixas ou mesmo insectos. Apesar de serem habitats com pouca disponibilidade de água, as dunas podem ser habitadas por algumas espécies de anfíbios, como o sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes). Este sapo consegue enterrar-se nas areias mais húmidas das dunas, onde permanece escondido durante as alturas mais quentes do dia, e voltando à superfície durante a noite para procurar alimento.

Serviços

Para além de serem importantes refúgios de biodiversidade, as dunas litorais marítimas desempenham serviços de ecossistemas relevantes que podem passar despercebidos. Um dos serviços fundamentais desempenhado pelos habitats dunares é o da protecção dos avanços excessivos do mar. O cordão dunar, assim como a vegetação residente, servem de barreira às grandes subidas de maré. Por esta razão, podem evitar catástrofes naturais como as cheias de cidades ou aldeias próximas da costa e a destruição de outros habitats importantes, como os estuários. Esta função de barreira é igualmente eficaz face a outros distúrbios naturais, tais como os ventos fortes. As dunas podem também reduzir efeitos de erosão intensivos, ao bloquearem a passagem de areias transportadas por ventos fortes. Outros serviços importantes destes habitats são a retenção dos solos, o fornecimento de água (depositada nas regiões mais profundas dos solos dunares) e o desenvolvimento de actividades culturais/educativas (observação de fauna e flora) e de lazer (observação paisagística).

Impactos

As dunas precisam de tempo e de condições estáveis para serem formadas e para se estabelecerem. Por isso mesmo, qualquer actividade que perturbe a estabilidade destes habitats pode constituir um factor de risco. O excesso de utilização das praias pode levar ao pisoteio das dunas e, consequentemente, à perturbação das areias e à destruição da vegetação crucial para a fixação dunar. A circulação de veículos causa as mesmas perturbações, embora com efeitos ainda mais impactantes. Outros factores de impacto estão relacionados com a destruição directa das dunas, através da construção de estruturas (habitações, caminhos, paredões e pontões), extracção de areias e pastoreio.

Invasoras

Os impactos acima mencionados, para além de contribuírem para a destruição das dunas, podem facilitar a colonização de espécies invasoras, uma das principais ameaças a estes habitats. As plantas invasoras são um factor de grande risco, pois são geralmente espécies com um crescimento rápido e de propagação elevada. Actualmente, um dos exemplos mais preocupantes é o do chorão-das-praias (Carpobrotus edulis). Esta planta, originária da África do Sul, foi introduzida em Portugal com fins ornamentais e de fixação de dunas. No entanto, a sua elevada reprodução e crescimento rápido faz com que ocupe vastas áreas dunares, formando autênticos tapetes que não permitem a fixação de outras espécies de plantas nativas. Por ser uma espécie muito competitiva, o chorão-das-praias pode levar à extinção das plantas nativas, pois impossibilita que estas tenham acesso a espaço, luz, água e outros nutrientes. Além do mais, esta planta contribui para o empobrecimento dos solos dunares através de processos de acidificação, condições que podem ajudar ao seu crescimento.

Outro exemplo de plantas invasoras altamente prejudiciais para as dunas são as acácias (Acacia spp.). As acácias, oriundas na sua maioria da Austrália, foram introduzidas em Portugal com fins ornamentais e de controlo de erosão das dunas. Como estão adaptadas a climas mais áridos, estas árvores colonizam facilmente os habitats de dunas costeiras. No entanto, o seu crescimento e propagação elevados cobrem grandes áreas dunares, causando os mesmos impactos negativos que o chorão-das-praias. Existem várias espécies de acácias nas dunas litorais portuguesas, como a conhecida acácia-de-espigas (Acacia longifolia), e todas elas partilham o estatuto de invasoras nestas regiões.

Conservação

A conservação das dunas litorais marítimas portuguesas poderá ser melhorada através de esforços intensivos de controlo e erradicação de espécies invasoras. Actualmente, têm sido organizadas acções de combate ao chorão-das-praias e às acácias das dunas litorais, com o arrancamento das plantas e raízes. Estas acções devem ser promovidas no futuro de forma a reduzir as populações destas espécies. O controlo das espécies invasoras poderá também ser realizado por intermédio de agentes químicos (como pesticidas) ou biológicos (insectos que prejudiquem a reprodução e propagação das plantas). No entanto, estas soluções devem ser estudadas e aplicadas com critério, de forma a não causarem impactos negativos na biodiversidade local. Outras medidas de conservação passam pela restrição das actividades de construção, pastoreio e a fiscalização e controlo de poluição. O ordenamento de parques de estacionamento das praias e a construção de passadiços elevados e de cercas de protecção das dunas são medidas muito eficazes para evitar o pisoteio e desestabilização das dunas.

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