As montanhas, apesar de ocuparem áreas relativamente pequenas em Portugal, são constituídas por muitos tipos diferentes de habitats com condições ambientais favoráveis. As condições dos habitats montanhosos podem ser bastante distintas dependendo das zonas da montanha, havendo uma variação ambiental à medida que subimos. Devido a esta influência da altitude, podemos observar gradientes de temperatura, chuva, humidade, radiação do sol e exposição ao vento. As diferenças podem ser extremas quando as montanhas são muito altas. Nestas situações, podemos encontrar quer zonas mais quentes ou temperadas na base da montanha, quer zonas mais húmidas e frias nos topos, onde por vezes ocorrem nevoeiros densos e queda de neve. Os diferentes tipos de solos, geralmente com declives variados, são também um importante factor dos habitats montanhosos. Por causa destas características, as montanhas podem conter uma grande variedade de habitats (e até de micro-habitats), assumindo um papel fundamental como refúgio para a biodiversidade.

Biodiversidade

As montanhas incluem uma diversidade muito rica de flora, que pode ser vista em diferentes habitats florestais, arbustivos e herbáceos. As regiões baixas e intermédias de montanha são normalmente compostas por florestas, bosques e matos. Nestas regiões, podemos encontrar florestas de sobreiro (Quercus suber) e florestas mistas de carvalhos (carvalhais) compostos por espécies relevantes da flora portuguesa, como o carvalho-alvarinho (Quercus robur), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica) e o azevinho (Ilex aquifolium). Nos vales dos rios montanhosos, podem ser vistos bosques ripícolas (isto é, das margens de rios) de teixos (Taxus baccata), freixos (Fraxinus spp.) e amieiros (Alnus glutinosa). Em regiões normalmente perturbadas pela acção humana, concretamente devido a actividades pastoris, podemos ver habitats de substituição de carvalhais, como os matos e matagais de tojais (Ulex spp.) e giestais (Cytisus spp.), e matos rasteiros de urzes (Calluna vugaris e Erica spp.). Nas zonas de maior altitude, o coberto vegetal é menos desenvolvido, sendo normalmente composto por vastas áreas de charnecas dominadas por zimbrais (Juniperus spp.), em especial pelo zimbro-rasteiro (Juniperus communis). As zonas mais húmidas de montanha fornecem condições ideais para a formação de turfeiras, que incluem diversas espécies de musgos e plantas aquáticas raras da flora em Portugal.

Esta diversidade de habitats montanhosos, compostos por comunidades vegetais particulares, é ocupada por muitas espécies de animais. De facto, algumas das espécies mais raras em Portugal são encontradas apenas em regiões de montanha, regiões essas que constituem o último refúgio para a sua sobrevivência. Um destes exemplos é a cabra-montês (Capra pyrenaica), uma espécie em risco de extinção e que actualmente está restrita às regiões montanhosas de Portugal e Espanha. A cabra-montês ocorre preferencialmente em zonas montanhosas rochosas, com áreas de florestas e matos, e as montanhas da Serra Amarela e do Gerês são, de momento, os únicos locais em Portugal onde a espécie persiste. Um dos predadores naturais desta espécie, o lobo-ibérico (Canis lupus signatus), também utiliza os habitats de montanha como refúgio. Esta espécie ameaçada, foi extinta em muitos locais da sua distribuição devido à caça sistemática, encontrando-se actualmente restrita às áreas montanhosas do norte de Portugal. Para além dos mamíferos, as montanhas também são refúgios para aves raras e importantes para a conservação, como a águia-real (Aquila chrysaetos), mas também para outras aves de rapina emblemáticas, como a águia-calçada (Hieraeetus pennatus) e o falcão-peregrino (Falco peregrinus). Os habitats montanhosos de água doce fornecem condições óptimas a muitas espécies de anfíbios, como a salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica), e de peixes, como a enguia (Anguilla anguilla). Podemos também encontrar espécies únicas de répteis e invertebrados nas montanhas de Portugal, como a lagartixa-da-montanha (Iberolacerta montcola) e o escaravelho-melolontídio (Monotropus lusitanicus), ambas espécies endémicas (isto é, espécies originárias de um local específico) da Serra da Estrela.

Serviços:

Os habitats montanhosos desempenham um grande número de serviços de ecossistemas. Um dos serviços mais importantes, para além do fornecimento de refúgios à biodiversidade, é o da regulação do ciclo da água. As nuvens que circundam as montanhas, acabam por arrefecer nas zonas mais frias das encostas, levando ao processo de condensação e queda da água. As águas de montanha são essenciais, não só para sustentar a biodiversidade local, como também para o consumo humano. O sequestro de carbono da atmosfera, feito principalmente pelas florestas montanhosas, destaca-se como outro dos serviços mais relevantes dos habitats de montanha. As montanhas também contribuem para a regulação do clima e do ciclo de nutrientes, para a formação e retenção dos solos, e para a obtenção de recursos, tais como madeira (produzida em zonas florestais), alimentos (através da caça e da pesca) e de minérios (obtidos através da exploração mineira). Algumas zonas montanhosas também são utilizadas para as actividades agrícolas e pastoris. As montanhas são extraordinários elementos da paisagem, contribuindo para o enriquecimento paisagístico e como atracção turística. Finalmente, estes habitats permitem o desenvolvimento de diversas actividades, como de lazer e turismo (montanhismo), desportivas (alpinismo e desportos de neve), culturais e educativas (observação da flora, fauna e riqueza geológica).

Impactos

Os habitats de montanha são bastante vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas.  Como são habitats que se encontram mais expostos aos agentes do clima, como a chuva, a temperatura, ou o vento, tornam-se também mais sensíveis a possíveis alterações destes agentes. As tendências para o aumento de temperatura e diminuição da chuva, devido ao aquecimento global, são um factor de risco para os habitats mais frescos e húmidos de montanha. Estas alterações climáticas podem levar à extinção de espécies mais sensíveis às alterações ambientais, assim como à mudança na distribuição dos habitats e da biodiversidade residente, pois as espécies de plantas e animais podem ver-se forçadas a ocupar regiões de montanha mais altas, frescas e húmidas. Outros impactos de risco dos habitats montanhosos estão principalmente ligados às actividades humanas, tais como a construção de estruturas, a desflorestação, a sobre-exploração de recursos naturais e as actividades agrícolas e pastoris intensivas. O excesso de turismo também pode causar impactos negativos nestes habitats, pois podem aumentar o risco de poluição, destruição directa do habitat e introdução involuntária de espécies invasoras.

 

Invasoras

As espécies invasoras podem ser uma ameaça preocupante para a flora e fauna nativa das montanhas, geralmente compostas por espécies muito sensíveis a perturbações do meio em que vivem. Espécies de árvores, como as acácias (Acacia spp.) e a acácia-bastarda (Robinia pseudoacacia), têm boa capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais, e por isso, são capazes de invadir os habitats montanhosos com eficácia. Estas espécies invasoras reproduzem-se com facilidade, formando bosques contínuos que impedem a colonização das árvores, arbustos e plantas herbáceas típicos de zona montanhosas mais baixas. Além do mais, estas espécies aumentam o risco de fogos, que podem ainda ser benéficos para potenciais novas invasões das áreas ardidas. As plantações de eucalipto (Eucalyptus globulus) realizadas na maioria do território nacional, fizeram com que esta espécie tenha actualmente uma área de ocupação considerável em Portugal. No entanto, esta espécie pode ter um comportamento de invasora em zonas mais húmidas, sendo capaz de colonizar os habitats húmidos de montanha de forma gradual. Assim, tal como as acácias e a acácia-bastarda, o eucalipto pode provocar impactos negativos que ameaçam o equilíbrio ecológico dos habitats de montanha.

Para além das plantas, existem actualmente vários exemplos de espécies de animais invasores de habitats de montanha. Alguns peixes, como o achigã (Micropterus salmoides) e a carpa (Cyprinus carpio), e invertebrados, como o lagostim-do-Pacífico (Pacifastacus leniusculus) e o lagostim-vermelho-da-Luisiana (Procambarus clarkii), podem ser já encontrados em habitats montanhosos de água doce. Estas espécies são competidoras ferozes, que impedem que a fauna nativa obtenha refúgios e alimento necessário à sua sobrevivência. Além disso, são também predadores implacáveis, provocando a extinção de populações de espécies naturais dos habitats de montanha. A tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta), uma espécie introduzida em Portugal devido à libertação de espécimes de aquariofilia em habitats naturais, é igualmente capaz de invadir este tipo de habitats. Por causa das suas capacidades de reprodução e comportamentos mais agressivos, a tartaruga-da-Flórida é um competidor de risco para as espécies de cágados nativos de Portugal, como o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa).

Conservação

As regiões de montanha podem ser protegidas através do controlo de introduções de espécies invasoras nos seus habitats. A vigilância de certas actividades, como as de turismo e das pescas, podem evitar a introdução involuntária ou propositada de espécies invasoras. A aplicação de multas devido a introduções derivadas de actividades piscatórias e de aquariofilia, poderá evitar que pescadores e donos de animais de estimação libertem espécies invasoras em habitats de montanha. Alertar as pessoas para os impactos negativos causados pelas invasões, poderá diminuir os riscos de plantações e libertações involuntárias de espécies exóticas. Planos de erradicação destas espécies, através do corte de plantas e raízes e da captura de animais, são acções eficazes que contribuem para a recolonização e estabilização da fauna e flora nativas. Outras medidas de conservação essenciais estão relacionadas com as limitações de actividades que degradam e destroem os habitats de montanha. Alguns exemplos destas medidas são as limitações de construções de estruturas (como estradas, parques eólicos e barragens), a redução da desflorestação e da sobre-exploração de recursos naturais. O controlo das actividades agrícolas, pastoris e turísticas é, também, crucial para um desenvolvimento sustentável das regiões montanhosas.

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