Os estuários são habitats que se formam no final do curso de grandes rios, ocupando áreas ao longo de toda a foz até à fronteira com o mar. Apesar dos estuários ficarem situados em zonas de correntes marítimas mais calmas, o mar desempenha um papel fundamental no funcionamento destes habitats. As dimensões dos estuários variam de acordo com as subidas e descidas das marés, e o constante contacto com o mar faz com que as águas estuarinas sejam naturalmente salobras (isto é, mistura de água salgada do mar com água doce do rio). A presença de águas salobras e de fracas correntes de maré permitem a acumulação de lodo (formação de lodaçais), areia e limos nas zonas mais interiores dos estuários. Por causa destas características únicas, os habitats estuarinos são complexos, dinâmicos e muito importantes para a biodiversidade.

Biodiversidade

Os estuários abrigam muitas espécies de plantas e animais. As zonas menos agitadas pelas correntes de maré levam à formação de lodaçais, que por sua vez, dão lugar a muitas espécies de plantas tolerantes ao sal (chamadas de plantas halófilas). Estas zonas são denominadas de sapais, e são consideradas como áreas de elevada riqueza de flora e fauna. A morraça (Spartina maritima) é uma planta típica destes ambientes, sendo uma das primeiras espécies a fixar-se nos solos alagados dos sapais. Após a sua fixação, esta planta desempenha um papel fundamental na consolidação dos solos, gerando pequenas ilhas que ajudam outras plantas e arbustos a fixarem-se. Para além da diversidade da flora estuarina, estes habitats constituem um importante refúgio para a fauna, em especial para muitas espécies de aves e peixes. Devido às condições ambientais favoráveis e à abundância de alimento, os estuários são capazes de sustentar números consideráveis de aves. No Estuário do Tejo, o maior estuário de Portugal e um dos maiores da Europa, podem ser vistas cerca de 100 a 120 mil aves durante a altura das migrações. Uma grande diversidade de aves utiliza os estuários com diferentes propósitos, seja como locais de residência, locais de reprodução, refúgio durante a estação do Inverno, ou como locais de passagem durante grandes migrações. Podemos encontrar nestes habitats muitas espécies de aves conhecidas, como a garça-real (Ardea cinerea), a garça-branca-grande (Egretta alba), e mesmo flamingos (Phoenicopterus roseus). Os estuários são também importantes para muitas espécies de peixes, que utilizam estes habitats como fontes de alimento para o seu crescimento. São também essenciais como zonas de passagem para peixes que migram para desovar, seja para peixes marinhos que desovam no rio (como o salmão, Salmo salar) como para peixes de rio que desovam no mar (como a enguia, Anguilla anguilla). As águas estuarinas ricas em biodiversidade atraem ainda outras espécies importantes como o golfinho-roaz (Tursiops truncatus), cuja única população residente em Portugal pode ser encontrada no Estuário do Sado.

Serviços

Os habitats estuarinos têm igual importância na prestação de serviços dos ecossistemas. A extracção do sal em salinas destaca-se como um dos usos principais e mais antigos dos estuários. As salinas, que funcionam com reservatórios de água marinha, são construídas nas zonas de sapal mais próximas do mar, onde as alturas de maré são mais variáveis. Após a descida da maré, as salinas retêm a água do mar durante o período de maré-baixa. Em seguida, a água do mar retida nas salinas entra em evaporação, dando lugar à formação dos cristais de sal marinho. Apesar de serem construídas pelo Homem, as salinas são estruturas tradicionais com milhares de anos. Por serem tão antigas, a biodiversidade local está perfeitamente adaptada a estas construções, que actualmente constituem habitats artificiais preferidos por muitas espécies de plantas. O equilíbrio entre as vantagens para a biodiversidade e as vantagens económicas derivadas da extracção do sal, faz das salinas um caso muito especial de serviços dos ecossistemas. Outros serviços prestados pelos estuários são a regulação do ciclo de nutrientes do solo, a eliminação/reciclagem de resíduos, os valores prestados para a educação (pois permitem a observação e estudo de muitas espécies selvagens, funcionando com um jardim zoológico natural) e produção de alimentos. A produção de alimentos representa um serviço estuarino importante, mas igualmente sensível. Os solos alagados e ricos em nutrientes dos estuários são vantajosos para a produção de arroz e para a construção de viveiros de pescado. No entanto, a exploração excessiva dos recursos naturais dos estuários pode trazer impactos negativos para estes habitats e para as espécies residentes.

Impactos

O crescimento da produção de alimentos pode ter impactos negativos directos e indirectos nos habitats estuarinos. A exploração excessiva dos estuários para o cultivo e pesca pode empobrecer os seus solos, assim como perturbar os fundos estuarinos mais estáveis. De forma indirecta, o aumento destas actividades leva ao abandono das salinas e ao consequente desequilíbrio do habitat. Outros factores importantes de ameaça são as construções de diversas estruturas que causam a destruição do habitat, despejo de lixo, entulho ou outros resíduos poluentes e excesso de trânsito de veículos terrestres e de embarcações a motor.

Invasoras

A introdução de espécies invasoras representa outra ameaça relevante para a biodiversidade estuarina. Um dos exemplos mais graves é a entrada da espartina (Spartina densiflora) no Estuário do Guadiana. Esta espécie é originária dos pântanos salgados da América do Sul e pensa-se que tenha sido introduzida por acidente em Portugal. Esta planta tem um comportamento muito agressivo, ocupando grandes áreas e excluindo outras espécies nativas por competição de recursos. Para além de contribuir na diminuição da diversidade de espécies vegetais dos estuários, esta espécie invasora pode alterar todo o equilíbrio destes habitats. Tendo em conta o seu crescimento rápido e em grandes densidades, a espartina pode impedir a circulação natural das águas estuarinas e levar ao excesso de depósitos sedimentares. Por estas razões, a estabilidade necessária para a formação e manutenção das áreas de sapal pode ficar em risco, assim como muitas espécies de flora e fauna que vivem nestes locais.

A quantidade de espécies invasoras de animais também tem vindo a aumentar de forma considerável nos estuários portugueses. Muitas espécies marinhas de invertebrados, tais como de moluscos e de crustáceos, têm sido introduzidas nas águas marinhas de Portugal graças às águas de lastro dos navios. Quando os navios se encontram nos portos de origem, os tanques de lastro (reservatórios de água na base do navio) são enchidos com água do mar para garantir a estabilidade do navio. As larvas de animais marinhos podem estar presentes nestas águas e ser libertadas nos locais de destino, assim que os tanques de lastro são esvaziados no final da viagem. Alguns exemplos de espécies introduzidas desta forma são a amêijoa-asiática (Corbicula fluminea), o caranguejo-azul (Callinectes sapidus) e o lagostim-do-Pacífico (Pacifastacus leniusculus). Outra espécie invasora relevante é o caranguejo-peludo-chinês (Eriocheir sinensis). Este crustáceo, originário das costas e estuários da Ásia Oriental, pode ser encontrado em todos os estuários portugueses, sendo considerado como uma das 100 espécies mais invasoras do mundo. Apesar de viver nos rios, o caranguejo-peludo-chinês utiliza os habitats estuarinos para reprodução. Devido à sua facilidade em reproduzir-se, as populações podem ser muito grandes, retirando o espaço o alimento necessário para a sobrevivência das espécies nativas. Outra invasora preocupante é a amêijoa-japonesa (Ruditapes philippinarum), introduzida em Portugal para produção em aquacultura. Esta espécie pode ser encontada em grandes números nos estuários dos rios Mondego, Tejo e Sado, tendo semelhantes impactos negativos para as espécies estuarinas.

Conservação

A conservação destes importantes habitats deve focar-se no desenvolvimento de um programa nacional de controlo/vigilância de invasoras, de forma a impedir a introdução de novas espécies e evitar a ocupação de outros locais por parte das espécies já introduzidas. Por exemplo, as águas de lastro podem ser tratadas antes do seu despejo em águas dos portos de destino, de maneira a eliminar larvas que possam ter sido transportadas. Outra possibilidade é o despejo controlado das águas de lastro em docas secas. Acções de erradicação de espécies invasoras já introduzidas também podem ser relevantes para o estado de conservação dos estuários. Os habitats estuarinos podem ainda beneficiar de outras acções de conservação, tais como a limitação da pesca e do cultivo. A diminuição destas actividades poderá evitar a desestabilização e empobrecimento dos solos estuarinos. Uma das formas de limitar estas actividades passa pelo incentivo à produção de sal em salinas, substituindo-se métodos de produção intensivos por outros tradicionais e em sintonia com os habitats estuarinos. A fiscalização de despejos de resíduos poluentes é também crucial para a manutenção da qualidade da água, enquanto que a limitação de construções e de tráfego de embarcações a motor poderá evitar a destruição dos espaços de estuário.

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