Os habitats semi-naturais são todos aqueles que são originados pela intervenção humana contínua, sem que percam, no entanto, a sua estabilidade e funcionalidade ecológica. Os habitats semi-naturais podem levar bastante tempo até serem formados, pois as actividades humanas nestes locais são praticadas de forma regular e sustentável. Assim que são formados, estes habitats passam a depender das intervenções contínuas, caso contrário podem ser substituídos por outro tipo de ecossistemas. Existem vários habitats semi-naturais em Portugal, entre os quais se destacam os prados e pradarias, as estepes e o montado alentejano. Os prados são áreas planas cobertas por vegetação herbácea, ideal para a prática do pastoreio, actividade responsável pela sua formação inicial. As estepes são áreas herbáceas de planície em regiões tipicamente mais secas. Em Portugal, as estepes são formadas pelas actividades agrícolas cerealíferas (como por exemplo, produção de trigo, aveia ou cevada), intercaladas com períodos de recuperação dos solos (alturas em que as estepes servem como áreas de pasto). O montado alentejano é um habitat muito particular em Portugal, composto geralmente pela presença de sobreiro (Quercus suber) e azinheira (Quercus rotundifolia), distribuídos espaçadamente e intercalados por áreas de pasto. Os montados foram inicialmente formados por diversas actividades humanas, como a silvo-pastorícia, a extracção regular da cortiça e as actividades agro-pecuárias e apícolas. Algumas plantações servem por si só como habitats semi-naturais muito específicos, dos quais se destacam as regiões vinícolas, originadas para a plantação de videiras (Vitis vinifera) usadas na produção de uva e vinho.

 

Biodiversidade

A grande variedade de habitats semi-naturais é aproveitada por imensas espécies da flora e fauna de Portugal. A biodiversidade vegetal assume particular importância, e a dominância de determinadas espécies são inclusivamente indicadoras do estado dos habitats. Nos prados húmidos podem ser encontradas comunidades dominantes de juncos (Juncus spp.) e de aveia-perene (Arrhenatherum elatius), sendo que esta última é especialmente característica dos prados de feno das regiões húmidas do norte de Portugal. Também se podem formar prados naturais, como aqueles dominados por cervum (Nardus stricta), normalmente associados a habitats mais rochosos. As estepes, para além da presença das plantações de cereais, são normalmente dominadas por comunidades de diferentes espécies de plantas gramíneas, tais como o braquipódio (Brachypodium spp.). Os montados são tipicamente ocupados por sobreiros, azinheiras e carvalhos, que se encontram distribuídos de forma dispersa entre áreas mais abertas de vegetação herbácea.

A comunidade vegetal abundante e geralmente dispersa ao longo de áreas extensas, fornece alimento a muitas espécies de animais. O alimento abundante é bastante favorável para muitas espécies de invertebrados, tais como moscas, abelhas, vespas, escaravelhos, minhocas, entre outros. Algumas espécies, como o ganhafoto (Chorthippus paralellus), chegam a ter populações tão numerosas que podem ser consideradas como pragas, provocando imensos estragos em zonas agrícolas. Devido à diversidade de invertebrados e à vegetação abundante, os habitats semi-naturais são autênticas fontes de alimento para outras espécies de mamíferos, aves, répteis e anfíbios. Os pequenos mamíferos, como o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus) e o rato-do-campo (Microtus arvalis), podem ser encontrados com frequência, alimentando-se de bagas, frutos, sementes e insectos. Aves mais oportunistas de dieta variada, como a gralha-preta (Corvus corone), são também comuns nestes habitats. A presença de pequenos mamíferos é favorável a alguns répteis, como a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus) e a cobra-de-escada (Rhinechis scalaris). Os habitats semi-naturais são também importantes para algumas espécies ameaçadas, tais como a abetarda (Otis tarda) e o lince-ibérico (Lynx pardinus). Enquanto que as estepes são fundamentais para a sustentação das poucas populações de abetarda em Portugal, os mosaicos de paisagem semi-naturais são frequentados pelo lince-ibérico, que os utiliza durante as suas caçadas ao coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus). Por estas razões, os habitats semi-naturais podem funcionar como autênticos refúgios de biodiversidade.

 

Serviços de ecossistema

Os habitats semi-naturais estão directamente ligados à prestação de serviços dos ecossistemas. São habitats essenciais para o desenvolvimento de actividades pastoris e agro-pecuárias, assim como para a agricultura e a apicultura. Os habitats semi-naturais são, assim, particularmente importantes na produção de alimentos, tais como carne (através do gado e da caça), vegetais, cereais, frutos, sementes, vinho e mel. Os montados são também essenciais para a produção da cortiça, um dos recursos com maior valor comercial em Portugal. Para além das actividades de produção/extracção de recursos, os habitats semi-naturais desempenham importantes serviços turísticos. Como exemplo, as plantações de vinhas das encostas do vale do Douro e os montados das planícies alentejanas são por si só atracções turísticas, pois fazem já parte da identidade da paisagem e da cultura tradicional portuguesa. Estes habitats são ainda capazes de prestar importantes serviços ambientais, tais como a formação e fixação dos solos, e a regulação dos ciclos da água e de outros nutrientes.

 

Impactos

Os habitats semi-naturais dependem do equilíbrio ecológico e das intervenções humanas, o que os torna sensíveis a quaisquer factores desestabilizadores. Por um lado, a sobre-exploração de recursos através do pastoreio e da agricultura intensiva, pode levar ao empobrecimento dos solos e à destruição gradual do habitat. Por outro lado, a quebra ou o abandono das actividades pastoris e agrícolas, levam à substituição destes habitats por outros de cobertura vegetal mais desenvolvida (ou seja, de níveis seguintes da sucessão ecológica, como por exemplo os matos e os matagais). Por estas razões, as actividades humanas devem ser equilibradas por forma a promover a sustentabilidade destes habitats.

 

Invasoras

A introdução de espécies invasoras constitui outro factor de impacto considerável nos habitats semi-naturais. Estes habitats, tendo em conta que são caracterizados pela presença e intervenção humana, têm maior probabilidade de sofrerem introduções acidentais ou deliberadas. Existem actualmente muitas espécies de invasoras que ocorrem em habitats semi-naturais, especialmente espécies de plantas herbáceas. As razões de introdução são diversas, passando por simples introduções acidentais (como acontece com grande parte das espécies de avoadinhas; Conyza spp.), ou por introduções com fins ornamentais, medicinais e comerciais (como a erva-tintureira; Phytolacca americana). Assim que as invasoras são introduzidas no habitat, conseguem desenvolver-se e dispersar-se de forma rápida e eficiente, ocupando grandes áreas e excluindo as espécies nativas por competição de espaço, luz, água e outros nutrientes. Um exemplo comum é a azeda (Oxalis pes-caprae), uma espécie que chega a ser característica dos campos um pouco por todo o país. No entanto, esta espécie não é autóctone, mas sim uma planta nativa da África do Sul e introduzida em Portugal com fins ornamentais. O seu domínio sobre outras plantas herbáceas nativas é evidente, demonstrando os impactos que podem ser causados pelas invasoras neste tipo de habitats

Pelas mesmas razões atrás referidas, a introdução de espécies de animais invasores é igualmente comum em habitats desta natureza. Alguns exemplos são os ratos e ratazanas, como a ratazana-castanha (Rattus norvegicus) e a ratazana-preta (Rattus rattus), pois são espécies que beneficiam de habitats com forte presença humana. Os habitats semi-naturais são óptimos locais para estas espécies sobreviverem, pois oferecem-lhes condições de abrigo (vegetação e solos macios para a escavação de tocas) e alimento abundante (sementes, frutos, e até insectos). Os pequenos mamíferos são animais com grande capacidade de reprodução, e por isso, ocorrem geralmente em populações com muitos indivíduos, um factor que pode ser problemático para a fauna local (pois algumas espécies podem ser predadas intensivamente, como alguns anfíbios) e até para o homem (podem causar grandes estragos em campos agrícolas). Para além do mais, estas espécies podem ser vectores de doenças perigosas, o que as torna uma ameaça para a saúde pública. A introdução de invertebrados que causam o declínio da fauna nativa, como a vespa-asiática (Vespa velutina), e de outras espécies que podem ser consideradas como pragas e transmissoras de doenças de plantas, como o mixomicete causador da doença-da-tinta em castanheiros e carvalhos (Phytophthora cinnamomi), são outros exemplos de invasores altamente prejudiciais para o equilíbrio dos habitats semi-naturais e para a sua biodiversidade.

 

Conservação

A conservação dos habitats semi-naturais pode ser melhorada através do controlo de introduções e erradicação de espécies exóticas invasoras. Planos nacionais de vigilância de invasoras, podem impedir novas introduções derivadas de plantações ou evitar a propagação de introduções acidentais. O arranque de plantas, assim como o controlo através de herbicidas, podem ser boas medidas de erradicação imediata de espécies invasoras. Introduções de animais invasores podem ser controladas com acções de vistoria e tratamento de produtos comerciais importados, de forma a detectar e eliminar espécies que são acidentalmente transportadas (como invertebrados, fungos, ou outras potenciais pragas). O aumento da fiscalização e legislação de actividades ligadas ao comércio de animais devem igualmente ser reforçadas. A terrariofilia pode constituir outra fonte de introdução de invasores, pois os donos dos animais podem ocasionalmente libertar espécimes na natureza (por falta de condições para os manter ou por simples aborrecimento em relação ao animal). Este tipo de acções podem ser prevenidas, através de campanhas de sensibilização que alertem os adeptos da terrariofilia para o impacto das espécies invasoras. Outras medidas de conservação dos habitats semi-naturais passam pela limitação e controlo das actividades agrícolas intensivas, que contribuem para a destruição gradual destes habitats. Por outro lado, acções que promovam a agricultura extensiva (isto é, a agricultura realizada através de métodos tradicionais) podem ser essenciais para evitar o abandono destes habitats e a sua consequente perda a longo prazo.

 

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