As turfeiras são habitats encharcados com uma elevada acumulação de matéria orgânica resultante da deposição de camadas de vegetação pouco decompostas. Estas camadas de vegetação, resultantes principalmente de musgos e ervas, dão origem à acumulação ao longo do tempo de um solo muito particular – a turfa. Estes habitats são geralmente formados em zonas húmidas e frias, podendo ser encontrados em zonas litorais e em áreas de alta montanha com encharcamentos permanentes.

 

Biodiversidade

Devido às suas condições ambientais peculiares, as turfeiras podem ser reconhecidas como relíquias biológicas devido à ocorrência de espécies raras de flora e fauna. As turfeiras apresentam uma vasta diversidade de musgos, plantas aquáticas, plantas insectívoras, e arbustos. Destacam-se aqui os esfagnos (Sphagnum sp.), grupo de musgos adaptado a zonas com elevada disponibilidade de água, que podem formar autênticos tapetes nos solos das turfeiras, fornecendo a maior parte da matéria vegetal constituinte da turfa. Estes musgos são também eficientes organismos na absorção e armazenamento de água nas camadas inferiores das turfeiras, gerando a base para a colonização de outras espécies vegetais, tais como junco-bulboso (Juncus bulbosus) e genciana-das-turfeiras (Gentiana pneumonanthe), entre várias espécies de juncos (Juncus sp.), ranúnculos (Ranunculus sp.) e carex (Carex sp.).

A disponibilidade de água e a diversidade vegetal das turfeiras permitem também a ocorrência de muitos insectos aquáticos, tais como barata-de-água (Dytiscus circumflexus) e borboleta-azul (Phengaris alcon). A borboleta-azul, atualmente em via de extinção em Portugal, coloca os seus ovos apenas nas flores da genciana-das-turfeiras; por esta razão, o desaparecimento das turfeiras pode levar à extinção destas duas espécies raras. As turfeiras são também habitats ideias para os anfíbios, fornecendo alimento em abundância devido à ocorrência de muitos invertebrados, ambientes húmidos necessários à reprodução, e abrigo face a predadores. Estes habitats são também importantes para muitas espécies de répteis e de aves adaptados a meios aquáticos, assim como para alguns mamíferos de grande porte. Um exemplo é o javali (Sus scrofa), que usualmente revira os solos de turfa para se refrescar ou para procurar bolbos de plantas para comer. Para além da flora e da fauna, as turfeiras são habitats ideais para muitas espécies de algas de água doce, cogumelos e líquenes.

 

Serviços de ecossistema

As turfeiras desempenham serviços de ecossistemas fundamentais, principalmente nos processos de regulação do ciclo da água e de nutrientes. Devido ao seu funcionamento como reservatórios de água, as turfeiras são essenciais para o reabastecimento dos aquíferos (isto é, depósitos naturais de água subterrânea) durante períodos de maior seca. São habitats muito importantes na dinâmica dos fogos, pois fornecem refúgios para a biodiversidade, têm capacidade de impedir a propagação de incêndios, e disponibilizam água e humidade que ajudam na recuperação de áreas ardidas. Para além da água, as turfeiras são autênticos reservatórios de carbono, diminuindo a quantidade de carbono presente na atmosfera. Estes habitats também retêm substâncias tóxicas, e por esta razão, podem ser considerados como purificadores ambientais.

 

Impactos

A destruição directa, relacionada com a extração de turfa, a drenagem de águas, a construção de estradas e caminhos, e o pisoteio humano, é uma das principais ameaças às turfeiras. A extracção de turfa também promove a libertação de carbono (armazenado na turfa) para a atmosfera, e consequentemente, para as alterações climáticas. As alterações climáticas, traduzidas pelo aumento de condições mais quentes e secas, inevitavelmente ameaçam a formação de turfeiras que necessitam de temperaturas baixas e de água abundante. A proliferação de espécies invasoras é também uma ameaça de grande importância para as turfeiras. Actualmente, conhecem-se algumas espécies de plantas invasoras de turfeiras na Europa (como na Irlanda e no Reino Unido) e nos Açores, tais como a conteira (Hedychium gardnerianum) e o gigante (Gunnera tinctoria). Estas plantas colonizam os solos de turfeira com relativa facilidade, formando tapetes que impedem a ocorrência e o crescimento de musgos e de outras plantas nativas a estes habitats. Em Portugal continental, a conteira já invadiu outros habitats continentais portugueses podendo, de futuro, constituir uma ameaça às turfeiras continentais.

 

Conservação

A conservação das turfeiras passa pela adoção de medidas que diminuam o impacto das actividades humanas nestes habitats. Estas medidas podem ser traduzidas pela diminuição do pisoteio e da construção de infra-estruturas, pela fiscalização de acções de despejos de poluentes em locais próximos das turfeiras, e pela restauração de turfeiras degradadas. No entanto, a falta de investigação e conhecimento sobre o estado atual das turfeiras em Portugal continental constitui uma grande limitação para o desenvolvimento de planos de conservação destes habitats. Esta questão é particularmente importante face à ameaça de invasões biológicas em Portugal. Embora ainda se desconheçam casos de invasão em turfeiras, atendendo à ameaça crescente das invasões biológicas nestes habitats, é necessário apostar em ações de prevenção e minimização do risco de invasão em turfeiras de Portugal continental. A identificação e o controlo de vias de introdução de espécies invasoras são essenciais para reduzir as introduções indesejadas de espécies invasoras, cujo aparecimento e dispersão ocorre frequentemente como consequência de atividades humanas. Esta identificação deve não só contar com o aumento dos estudos e planos de vigilância de invasões, bem como com a união de esforços entre cientistas, educadores, gestores, legisladores e, de forma geral, todos os cidadãos.

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